Eram cinco e pouca da manhã. Abro os olhos e o quarto ainda é escuro, num breu que parece espelhar o interior da minha própria mente. Antes mesmo de afastar o lençol, o peso do dia bate à minha porta. É uma visita indesejada, pontual, carregando uma prancheta invisível com todas as obrigações, prazos e problemas que me aguardam do lado de fora. Sinto aquele silêncio espesso de quem mal despertou e lido com a mente dispersa que o cansaço da véspera deixou de herança.
Naquele instante, no limbo entre o sono e a vigília, percebo uma verdade incômoda: a minha alma amanheceu sem forma. É um estado de pura vulnerabilidade. Se eu me levantar agora, no piloto automático, serei apenas engolido pela engrenagem. É preciso fazer algo antes que a rotina me molde outra vez, aparando minhas arestas com sua forma fria e urgente.
Decido pausar. Respiro fundo e, ali mesmo, olhando para o teto invisível, entrego-Lhe o meu caos: a minha confusão, a ansiedade pelas horas que ainda nem vivi. Tateio no escuro da minha própria fragilidade e, num movimento de fé, encontro a Sua mão. Então peço, no silêncio do quarto, que Ele sussurre ao meu peito aquilo que transformou o universo no princípio dos tempos: “Haja luz!”. E, lentamente, sinto nascer em mim o Seu amanhecer.
A minha prece ganha contornos de rendição.
Pai, diz outra vez: “Haja luz!”. Ilumina as margens desse meu caminhar. Já não exijo um milagre pirotécnico nem o cancelamento da minha agenda. Entendi que a verdadeira paz não foge da realidade. O meu pedido agora é outro: não muda o meu dia, mas muda o meu ver. Ensina os meus olhos a Te enxergar nas entrelinhas da vida comum. Que a Tua luz revele o Teu cuidado onde eu costumava enxergar apenas tédio.
Levanto-me, finalmente. Vou até a sala e percebo o sol rasgando, pouco a pouco, a cortina cinzenta da madrugada. A luz que desperta o mundo acompanha a claridade que também nasceu dentro de mim. A Sua presença acalma meu coração e sustenta meus passos até a cozinha.
A água ferve. O pó encontra o calor, e o aroma invade a casa. O milagre se materializa no mais simples dos atos: o café na mesa ganha outro sabor. Já não é apenas um combustível para despertar o corpo; tornou-se um lembrete da graça. Cada pequeno instante agora respira o Teu amor.
Olho para a pia, para as chaves sobre a mesa, para a porta que logo precisarei cruzar. O que antes era apenas pressa e obrigação, o fardo repetitivo dos dias, de repente se transfigura. Aquele espaço comum agora é o altar da minha devoção. Entendo, com a xícara quente entre as mãos, que o sagrado não mora apenas nos templos nem nos grandes feitos. Quando a perspectiva muda, o próprio chão da minha rotina é, silenciosamente, santificado.